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Como a empatia passou a fazer parte do meu cotidiano no trabalho

ECOA

23/10/2019 09h52

O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujos sonhos estão cheios de jardins. O que faz um jardim são os sonhos do jardineiro (Rubem Alves, em "Entre a ciência e a sapiência").

Esta parábola é meu norte quando penso nos trabalhos que desenvolvo com organizações, apoiando-as a ter a empatia não apenas como um valor estampado em seu quadro de missão, visão e valores, mas como uma filosofia de vida que é parte do cotidiano de cada colaborador. Não me bastava teorizar e saber tudo que os livros ensinam, era preciso eu colocar a mão na terra e me tornar este jardineiro.

Compartilho com você alguns aprendizados que têm sido fundamentais em minha jornada.

  1. Se perceba parte do problema. E da solução.

Se 'violento' significa agir de maneiras que resultam em dor ou dano, então muito de como nos comunicamos de fato poderia ser chamado de 'comunicação violenta'. E no ambiente de trabalho essa comunicação violenta se reflete em atitudes como acusações, discriminações, falar sem ouvir, piadas e apelidos pejorativos, julgamentos moralizadores, negação da experiência do outro, reações a partir da raiva, culpabilização.

Ter essa compreensão foi inicialmente um choque. Nunca havia parado para pensar que o impacto de algumas de minhas ações poderia ser extremamente violento para outras pessoas. Inclusive, quando alguém me dizia que não gostava de algo que falei, minha primeira reação era "Ah, você faz uma tempestade em copo d'água".

A violência que eu criticava e condenava também fazia parte de mim, de forma sutil e naturalizada.

  1. Deixe as expectativas sobre como os outros devem ser

Apontar as ações de outras pessoas e dizer que elas estão erradas sempre foi a alternativa mais simples de desviar o foco e atenção do trabalho interno que eu tinha pela frente. Justificar minhas ações com base nas escolhas dos outros, era regra: "Claro que eu agi desta forma, Como poderia ter agido de maneira diferente, depois do que ele fez comigo?"

Quando iniciei uma busca consciente por viver a empatia e não-violência em meu cotidiano, percebi que podia deixar de lado esse jogo da culpa e acusação e aprender a escutar o que era importante para mim.

Para isso, foi fundamental ter em mente que não era possível controlar o que as pessoas diziam ou faziam, mas eu tinha escolha de me desenvolver emocionalmente e ter mais condições responder de forma não-violenta aos estímulos que recebia.

  1. Desconstrua as figuras de inimigo

Este pra mim é, de longe, o maior desafio.

Eu e minha companheira temos uma editora de livros e jogos voltados para comunicação e empatia. Dias atrás, recebemos uma mensagem de uma pessoa com a qual conversávamos sobre uma parceria, questionando algumas mudanças nas condições iniciais de negociação.

Minha primeira reação interna foi defender meu ponto de vista e colocar esta pessoa na posição de quem estava errada e não sabia do que estava falando. "Como assim ela acha que pode falar desse jeito comigo? Se não tá contente, a gente nem precisa seguir com essa parceria."

Antes da ligação que faríamos, algumas respirações profundas. Me conectei comigo mesmo e percebi que para mim era importante liberdade para trazer as condições de negociação que vejo serem saudáveis para minha empresa. Ao ler a mensagem, tive a sensação que eu não deveria ter mudado as condições iniciais de negociação.

Respirei mais uma vez. Busquei me conectar com esta pessoa. Imaginei que ela estava buscando cuidar de algo, talvez de sua sustentabilidade financeira e clareza, expressando sua surpresa através do questionamento feito.

Respirei uma última vez. Nos falamos ao telefone e nos escutamos. Percebi que não entrei na conversa com a reatividade inicial que tive. Estava disposto a escutar. E durante cerca de 15 minutos nos escutando consegui compreender o que era importante para esta pessoa. Consegui expressar o que era importante pra mim. Nos entendemos.

Confesso que desde que comecei a viver estes três aprendizados que mencionei no texto, percebo que dá mais trabalho me relacionar. Afinal, aquela história de "a culpa é minha, então eu a coloco em quem eu quiser", não cola mais. A escolha consciente de um caminho da empatia me trouxe mais responsabilidade.

Ao mesmo tempo, percebo que esta decisão me expandiu as possibilidades e apoiou a construir relações de mais reciprocidade e transparência. Me tornei mais acolhedor e aumentou minha disposição em dialogar com quem é diferente. Consigo hoje navegar o conflito com mais presença, apesar do frio na barriga que sempre me visita.

E você? Como vê que estes aprendizados podem contribuir com suas relações profissionais e os desafios que enfrenta no trabalho? Conta aí nos comentários!

Sobre o autor

Sérgio Luciano é empreendedor e atua com a promoção da empatia e diversidade como caminho para a construção de relações mais saudáveis. Intrigado pela complexidade das relações de poder e privilégio numa sociedade, tem se aprofundado nesse tema pelo olhar Processwork, uma abordagem terapêutica derivada da psicologia junguiana voltada para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento. Também é especialista em comunicação não-violenta e atende organizações e pessoas físicas no Brasil e no exterior.

Sobre o blog

Criar condições para um mundo mais humano e acolhedor para todas e todos passa também por ressignificar as relações no ambiente de trabalho e entre organizações e sociedade, buscando novas formas de produzir e se relacionar. Às vezes essas novas possibilidades são desafiadoras às nossas crenças e ao sistema atual, mas nem de longe são impossíveis. Tudo começa a partir da escolha individual de mudar hábitos, visões de mundo e comportamentos.

Sérgio Luciano