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A mudança é certa; a questão é: para onde queremos seguir?

ECOA

05/02/2020 11h24

A sociedade está mudando. As empresas estão mudando. Mas nem sempre nos damos conta disso.

Já parou para pensar em como eram as primeiras organizações que surgiram na história? Há milhares de anos começaram a surgir as primeiras organizações quando povos começaram a se dominar. Estas organizações tinham como característica o uso excessivo da força como forma de dominação. Regimes totalitários onde dominava quem tinha mais poder. Quem tinha menos poder se subjugava e atendia aos desejos de seus soberanos.

Com o tempo, mais precisamente com o advento da agricultura, já havíamos na sociedade uma ampliação da forma como nos organizamos. Nesta época, com a possibilidade de uma produção maior de alimentos, em escala, e que atendesse a um maior número de pessoas, começaram a surgir organizações mais elaboradas enquanto sociedade. Havia agora uma divisão de tarefas enquanto sociedade: ferreiros, agricultores, legisladores, etc.

Depois, surgiram novas demandas e necessidades. O advento da revolução industrial. Com ela, vieram também outras formas mais de nos organizarmos enquanto coletivo. E as empresas seguiam esta mesma visão.

Processos. Tecnologia. Informação. Uma evolução em 200 anos que nunca se viu nos milhares de anos anteriores de nossa história. Construímos muitas coisas. Nos conectamos globalmente. Falamos com pessoas ao redor do mundo em tempo real. Chegamos à Lua. Queremos ir à Marte. Física. Ciência. Em todas as áreas evoluímos exponencialmente.

Porém, nossa evolução enquanto mindset de sociedade não acompanhou essa evolução. É muito mais lenta e gradativa e ainda estamos em paradigmas que não se encaixam mais nessa forma de ver a sociedade.

Como exemplo, nunca destruímos tanto o planeta igual agora. Consumindo muito mais do que sua capacidade de regeneração. Afetando direta e consistentemente o clima do planeta e interferindo cada vez mais nas dinâmicas da natureza.

Ao mesmo tempo, cada vez mais estão surgindo empresas e pessoas preocupadas com a regeneração das relações e do planeta. Que buscam em seus processos e propósito incluir não apenas o lucro pelo lucro, mas também um cuidado maior com o coletivo.

Claro que estas iniciativas, ainda, não falam tão alto quanto a cultura opressora e patriarcal que ainda perdura nos dias atuais. Cultura opressora e invasora, que por onde chegava conquistava a tudo e todos pela força. Onde a competição era a regra e vencia apenas aquele que tinha mais poder. Mudou-se a forma, mantiveram-se seus resquícios.

Porém, cada vez mais, vencer deixa de ser uma condição individual para se tornar coletiva. Se não vencemos juntas e juntos, qual o propósito? De que vale ganhar às custas do bem-estar de outras pessoas?

Aos poucos, esse pensamento se torna mais presente. A partir da voz de pessoas influentes. Nas políticas de de alguns fundos de investimento. Na voz de líderes mais progressistas. Na voz de jovens ativistas. E é natural que este pensamento sofra fortes retaliações e descrédito diante do mainstream. O que é mais complexo nessa vida é transformar uma cultura, incorporar novos paradigmas.

Diante disso, gosto de lembrar de um dos grandes ensinamentos que tive com o Taoísmo:

Algumas coisas na natureza mudam tão rápido que sequer percebemos. Outras, tão lentamente que também não percebemos. E algumas mudam num tempo que podemos perceber.

Pode ser que muitos não vejam essa mudança no paradigma de separação para conexão. Outros, talvez, fechem os olhos para isso e deem mais valor para o paradigma de separação onde estão seguros e acostumados. Talvez seja mais fácil viver na crença de que não é possível fazer diferente.

Em meio aos desânimos e descrenças, gosto sempre de trazer ao coração as palavras de Rubem Alves:

O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo os sonhos estão cheios de jardins. O que faz um jardim são os sonhos do jardineiro.

Que a gente não perca a capacidade de sonhar esse grande jardim que é o mundo. Talvez um sonho distante a se perseguir, mas nem de longe impossível de começar (ou continuar) a materializar.

 

Sobre o autor

Sérgio Luciano é empreendedor e atua com a promoção da empatia e diversidade como caminho para a construção de relações mais saudáveis. Intrigado pela complexidade das relações de poder e privilégio numa sociedade, tem se aprofundado nesse tema pelo olhar Processwork, uma abordagem terapêutica derivada da psicologia junguiana voltada para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento. Também é especialista em comunicação não-violenta e atende organizações e pessoas físicas no Brasil e no exterior.

Sobre o blog

Criar condições para um mundo mais humano e acolhedor para todas e todos passa também por ressignificar as relações no ambiente de trabalho e entre organizações e sociedade, buscando novas formas de produzir e se relacionar. Às vezes essas novas possibilidades são desafiadoras às nossas crenças e ao sistema atual, mas nem de longe são impossíveis. Tudo começa a partir da escolha individual de mudar hábitos, visões de mundo e comportamentos.

Sérgio Luciano