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Empresas não precisam existir "para dar lucro"

ECOA

12/02/2020 04h00

A primeira vez que ouvi falar sobre negócios sociais foi em 2011, quando participava de uma organização de estudantes e um dos integrantes contou sobre um tal de Muhammad Yunus, criador do Grameen Bank, um banco de pequenos empréstimos para os pobres sem as garantias e exigências tradicionais dos bancos comerciais, em Bangladesh. Projeto esse iniciado em 1976 e formalizado como banco desde 1983. Aprendi que esse tipo de empréstimo tinha um nome, microcrédito. E descobri que Yunus era o precursor dos negócios sociais.

Seguindo o conceito trazido por Yunus, negócios sociais são empresas que buscam resolver um problema social desenvolvendo produtos e serviços para a base da pirâmide, fazem dinheiro com isso, mas reinvestem todo o lucro obtido no próprio negócio. A métrica principal de sucesso de um negócio não é o lucro em si, mas o impacto social gerado para as pessoas e o meio ambiente.

Próximo deste conceito trazido por Yunus, estão também os hoje chamados de negócios de impacto. Assim como os negócios sociais, estes também são voltam seus produtos e serviços para as classes C, D e E e tem o objetivo de resolver uma demanda social importante, mas consideram possível, além do reinvestimento, a redistribuição de lucros.

Fonte da imagem: https://porvir.org/entenda-os-conceitos-de-negocios-sociais/

Um pequeno ajuste de perspectiva muda tudo

Falar sobre negócios sociais nos dias atuais é uma forma de refletirmos sobre o sistema de crenças no qual temos construído a sociedade até agora e construir novos modelos de pensamento para construirmos um futuro de mais cuidado coletivo e que os negócios estejam a serviço do bem-estar social.

A ideia de que toda empresa existe 'para dar lucro' é algo já enraizado em nossa cultura. Lembro escutar isso com frequência em minhas aulas de graduação e pós graduação, bem como nas empresas por onde passei. 

Trabalhando com melhoria contínua durante uma década, era recorrente o discurso de que os projetos precisavam focar em reduzir custos e aumentar o resultado financeiro, ainda que fosse reduzir o bem-estar dos funcionários. Se uma empresa existe para dar lucro, o que e o como ela faz, se torna secundário. Se der lucro, tá tudo certo.

Pela ótica dos negócios sociais, o lucro é um dos indicadores de que o negócio está saudável, mas não o único. Transformamos a ideia de que uma empresa existe para dar lucro e partimos do pressuposto que a empresa existe para contribuir com a redução da pobreza ou mais problemas (como educação, saúde, acesso a tecnologia e meio ambiente) que ameaçam as pessoas e a sociedade.

Outras variáveis tão importantes quanto o lucro, se não mais importantes, são o bem-estar das pessoas dentro da empresa e os impactos socioambientais de suas políticas, produtos e serviços.

Por exemplo, de nada adianta um negócio social ter o propósito de melhorar o acesso à educação e ter um ambiente de trabalho que adoece psicologicamente as pessoas, ou contribuir para aumentar o endividamento das pessoas que a empresa busca atender.

Negócios sociais já são realidade no Brasil, e aumentam todo ano

Conheço três organizações no Brasil que tem contribuído fortemente com o cenário de negócios sociais e negócios de impacto por meio da captação de investimentos, programas de mentoria e aceleração, parcerias com grandes empresas, dentre outros. Vale dedicar um tempo para conhecê-las.

Instituto Quintessa: O Quintessa existe para impulsionar uma nova forma de fazer negócios. Desejam ser protagonistas na construção do país que sonham e buscam ressignificar o papel de empresas como um instrumento de geração de impacto e estimular que tenham uma gestão consciente e humana.

Artemísia: Em 2004, a Potencia Ventures percebeu no Brasil um enorme potencial para desenvolver negócios com impacto social e por isso fundou a Artemísia. Sua missão é identificar e potencializar uma nova geração de empreendedores(as) e negócios de impacto social que sejam referência na construção de um Brasil mais ético e justo.

Yunus Negócios Sociais: A Yunus Social Business acredita no poder dos negócios para eliminar a pobreza. Fundada em 2011 pelo Prof. Muhammad Yunus e Saskia Bruysten para expandir o sucesso dos negócios sociais de Bangladesh para o mundo. Seus fundos de investimento de impacto fomentam negócios locais que promovam emprego, educação, saúde, água e energia limpa para mais milhões de pessoas no leste da África, América Latina e Índia.

Não acredito que os negócios sociais são a única e, tampouco, melhor resposta para os problemas sociais e ambientais que vivemos hoje. Porém, acredito que eles são mais um potente ator para contribuir com as transformações que precisamos para construirmos sociedades mais justas e inclusivas, que deem conta de cuidar do bem-estar e qualidade de vida de todos.

Sobre o autor

Sérgio Luciano é empreendedor e atua com a promoção da empatia e diversidade como caminho para a construção de relações mais saudáveis. Intrigado pela complexidade das relações de poder e privilégio numa sociedade, tem se aprofundado nesse tema pelo olhar Processwork, uma abordagem terapêutica derivada da psicologia junguiana voltada para mediação de conflitos, facilitação de grupos e autoconhecimento. Também é especialista em comunicação não-violenta e atende organizações e pessoas físicas no Brasil e no exterior.

Sobre o blog

Criar condições para um mundo mais humano e acolhedor para todas e todos passa também por ressignificar as relações no ambiente de trabalho e entre organizações e sociedade, buscando novas formas de produzir e se relacionar. Às vezes essas novas possibilidades são desafiadoras às nossas crenças e ao sistema atual, mas nem de longe são impossíveis. Tudo começa a partir da escolha individual de mudar hábitos, visões de mundo e comportamentos.

Sérgio Luciano